quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A liberdade e o Sete de Setembro

         A gente enche a boca para dizer que é livre, que exerce o livre arbítrio do jeito que bem entende e tal. Balela! Por gentileza, se existir no mundo alguém que faça só o que realmente quiser, me apresente. Longe de mim duvidar da palavra de algum romântico por aí, que acredita que é possível levar a essência das vontades ao pé da letra, mas não posso evitar o espanto, uma vez que a gente se importa, sim, muito com a opinião alheia ainda. Tem de ser dito e assumido: somos uma espécie de eternos serviçais, prontos a agradar a terceiros, nos lixando para o que queremos de verdade.
         Parece muita pretensão eu querer falar por todo mundo, mas estou convicta de que se trata de um “mal” que acomete mó galera nas redondezas. Claro, não chega a deixar a geral prostrada numa cama, sem ter forças para nada, mas o fato é que incomoda, né? Confessem aí, que vivem pensando no que devem ou não fazer, em como devem ou não agir. Eu, ao menos, sou uns 68,23% assim. Gasto boa parte da vida, maquinando sobre qual será a decisão acertada para todos os meus dilemas. Será que eu pergunto por que aquela criatura é tão irritante e parece fazer questão de ser nas horas mais impróprias? Devo tomar a iniciativa em relação a ele, afinal amo aquele par de olhos azuis desaforados, desde que o mundo é mundo? Ponho aquele vestido amarelo, mesmo correndo o risco de ser confundida com uma gema ambulante? Falo para a moça que ela acaba de dar o meu troco errado, além de ter colocado sal no meu café? Esquece, eu curto um exotismo culinário. Quem já não se viu diante de pequenas dúvidas parecidas com essas? E mais, se perguntando o que os outros iriam pensar a seu respeito depois de tomar essa ou aquela atitude? Olha, aposto que o número é alto. E não condeno também, pois sei que é sintomático do mundo anormal que habitamos. Salve!
         Estava eu, dia desses, assistindo a uma reportagem de moda, em que uma consultora da área dava dicas aos telespectadores de como vestirem-se bem, e isso aguçou minha reflexão, uma vez que já passei pelo exercício irritante de escolher determinada peça de roupa e acabar desistindo de usá-la, pelo fato de não ser algo totalmente dentro do padrão do que se convencionou chamar de bonito. Não estou subestimando - é bom deixar claro - o profissionalismo da moça convidada a opinar e tal, mas muito me impressionou o fato de darmos mais crédito a esses profissionais que a nossa vontade genuína de vestir o trapo que der na telha, mesmo sob pena de passar por desatualizados, cafonas, alienados e sei lá mais o quê. Eu gosto de me vestir bem. A vizinha também. Você, certamente, não abre mão. Mas, sinceramente, não dá para se denominar cheio de personalidade, livre, se, a cada nova moda lançada pela protagonista da novela das oito, lá estamos nós, ávidos por adquirir tudo que aparece na televisão. Que raio de liberdade é essa?
          Enfim, o case da moça doutorada em bom gosto me pareceu um bom referencial de discussão. Queria ser uma mosquinha, só para ver quantas criaturas ficaram em frente ao vídeo, desesperadas por não deixar passar nenhuma informação e depois - creio eu - vestir roupas pouco condizentes com sua personalidade e biótipo - tudo pela conquista do suprassumo fashion. Isso vale para tudo na vida, não somente em relação ao guarda-roupa e às ações cotidianas. Penso que trair o que soluça dentro de nós é mesquinho demais. Nem que provoque taquicardia e estômago embrulhado, é preciso falar, agir, gritar, se declarar, chorar, rir com gosto. E, principalmente, usar o vestido amarelo. No desfile de Sete de Setembro. rs

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