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Porta-voz dos desajustados, contadora de fábulas

Eu confesso: superestimei meu apego ao mercado factual, à massacrante rotina de eventos. Eu nunca nutri uma paixão desenfreada pela coisa, mas pensei que poderia tranquilamente tirar dela minha cota de dignidade na sociedade, minha parcela proletária feliz. Quem eu quis enganar? Eu sou só uma criança que queria escrever um mundo de possibilidades, contar histórias e inspirar com adjetivação despudorada. Talvez tenha errado a dose, eu nunca tive muito limite.
Aquela foi uma noite em que não consegui dormir. E os sentimentos atropelavam tudo que viesse pela frente - até o sono. Era uma mistura de vontades que não suportavam mais ser relegadas com um desejo de fazer acontecer imediatamente, sem esperar por respostas, vento a favor, previsão dos astros. Eu queria produzir, deixar um recado, um bilhete dizendo que voltaria, apesar de viver fugindo.
Eu queria ser repórter da editoria de comportamento, só isso. E seguir à risca o clichê que imagino na minha cabeça castanha. Investigar os males do coração, do pensamento e, quem sabe, curar com frases e exclamações. Só queria escrever o que eu quisesse, disfarçando minha indisciplina com um lead sedutor. Eu só queria ser a sua repórter, meu caro desajustado. A sua porta-voz, a sua amiga curiosa que conta fábulas lindas para você dormir e sonhar com os anjos, enquanto descobre seu passado e seu presente. Só isso.



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