Pular para o conteúdo principal

Não vou querer filhos, obrigada

Às vezes, me pego pensando na questão de ter ou não ter filhos, e quase que em uníssono meus pensamentos sempre chegam à máxima de que é irresponsabilidade demais cogitar isso num mundo como o de hoje. Não sou o tipo de pessoa que fica encantada, louca para ter um, se vê algum bebê - para ser franca, quando mais nova, era bem mais fã - todavia, não deixo de ficar comovida. É sempre muito tocante partilhar, ainda que por alguns segundos, de uma inocência que se mantém à margem de toda maldade, que faz carinhas e boquinhas sem saber por quê.
Falo no assunto, pois me percebo na faixa etária em que, geralmente, muitas moças estão casando e engravidando. Estou, segundo os argumentos biológicos, no período ideal para ser genitora, ainda que eu tenha mais afinidade no momento com uma maratona de Pokémon na televisão (insira aqui seu xingamento dizendo que eu não saí da adolescência). E tenho acompanhado muitos exemplos de casais jovens perto de mim, o que me faz ficar ali, abobada, pensando se eles estão, de fato, plenos com aquela escolha - não raro, forçada devido às circunstâncias. Fico e não consigo demover impressões da cabeça, como se a constituição da família fosse - mais que um presente da vida, uma sorte - uma obrigação católica opressora, principalmente para as mulheres (interpretem com carinho o ''opressora'', hein, por-fa-vor-zi-nho). Famílias são empresas, contratos sociais, negócios. Antes de ser composta por seres que amamos e com quem nos importamos, o vocábulo família é uma instituição. E, em determinados ângulos, considero isso bem nocivo. Nocivo para quem, cara-pálida? Para o sujeito, enquanto único e detentor de ambições particulares, desejos e, sim, por que não, traumas com os quais nem ele sabe lidar. Quando peso isso e mais algumas coisas na balança, não sei se me agrada a ideia de ser encarada como uma heroína por uma criança. Não, eu não tenho essa vaidade, Revista Claudia. Criança dá trabalho. É um acontecimento lindo, mágico, extasiante - a linha do tempo do meu Facebook que o diga - mas não estou certa se quero educar alguma para viver nesta selva lá fora.    
Lógico que, se eu tivesse uma, eu seria louca, babona, obcecada, não deixaria ninguém chegar perto, gostaria, inclusive, de guardá-la num potinho só para mim e evitar qualquer contato seu com a imundície humana. Ok, tô brincando. Mas essa história ''de filho'' parece ser a brincadeira favorita do ser humano, seu fetiche maior. Ter uma copiazinha sua e moldá-la a seu gosto, projetando um espelho de atitudes em toda a vivência dela. Analisando por um viés meramente racional, não deixa de ser doentio, penso.
Creio ser impossível não pintar a autora como o monstro do lago Ness, após ter escrito tudo isso - e o fato é que ela é, sim, bem egoísta, ainda que seja capaz também de uns gestos bem bacanas. Não que eu me orgulhe disso e de ser incapaz (talvez por enquanto) de abrir mão de uma vida pessoal, só acho fundamental não esconder. Por enquanto - e quem sabe enquanto eu viver - não vou querer filhos, obrigada. Me contento com bichinhos. Meu ideal de felicidade pode não ser o mesmo que o seu, que fantástico, não?


Auxiliou no post:

I can't make me - Butterfly Boucher





                

Comentários

SUA LOUCA!!!!!
Enfim alguém que me entenda completamente! ipi, ipi, urráá!
Me sinto muito egoísta quando penso em não querer filhos, pq também não estou muito a fim de abrir mão da minha individualidade, mas o principal da minha decisão é que penso exatamente isso que tu falou: como ter coragem de gerar um ser pra viver neste mundo? E com isto me sinto muito altruísta.
Mas claro que as pessoas deste mundo não estão preparadas para seres evoluídos como nós e nos enchem de argumentos como: "tu diz isto pq ainda não encontrou a pessoa certa" (e eu acho que já encontrei sim, mas não mudou meu ponto de vista) ou "ah, mas tu ainda pode mudar de ideia." Sempre complemento que posso mesmo mudar de ideia, mas que agora a minha decisão é esta e ela deve ser respeitada.
Bruna Castro disse…
UEHAEIHAUEAHUEHI sua louquinha, te entendo to-tal! Na real, acho filhos coisa de outro mundo, não me imagino de verdade sendo mãe e tem n questões que entram na jogada... essa coisa de ''poupar'' uma vida de viver nesse inferninho, ainda que muito apocalíptica, é muito real também. Esse mundo é cruel, cara! Enfim... não me privo de mudar de ideia, a vontade pode rolar, mas ainda não fui ''atacada'' hehe...
Viu, e manda um ''NO MEU ÚTERO MANDO EU'' na próxima vez em que te importunarem. Beijão e obrigadíssima por ler. :)

Postagens mais visitadas deste blog

Sumiços, porre de vinho, Julia Roberts

Sumi, né? Eu sei. Mas não foi por falta de ideia. Na verdade, seguidamente os ''preciso escrever sobre isso porque tá me sufocando'' vêm me visitar em uníssono. Saudade de usar ''uníssono'' em um texto de novo, ufa, saiu. No colégio, uma vez, uma professora disse que eu era uma pedante literária. Sigo honrando o deboche com gosto.   No geral, eu não tenho mais tempo (será que eu arrumaria tempo?). Não tenho mais tempo para escrever minhas misérias aqui, logo eu que sempre priorizei minimamente este espaço nebuloso. Fazer o quê? É da vida. Nem vim fazer mea culpa até porque ninguém se importa, foi mais para dar as caras, tirar o pó do lugar, abrir as janelas. Como vão? Me convidem para tomar um café, só não liguem para o meu celular, não suporto telefone tocando. Mentira, café com esse calor não tem condição, me convidem para ficar em silêncio tomando um vento na cara. Preciso de silêncio, não aguento mais ter que opinar sobre tudo. Não aguento mais qua…

Sobre Ilha das Flores e Ilha das Flores - depois que a sessão acabou

A ideia deste post surgiu de algo bem interessante. Ontem, eu dei uma lida numa entrevista do cineasta Jorge Furtado e decidi dividi-la no perfil que tenho em uma rede social, uma vez que ele fez algumas considerações sobre jornalismo - e isso, independente de quem vier, sempre me faz dar uma parada. Gosto de ver o que estão falando, etc. Na ocasião, o repórter também nos lembrou da passagem de 25 anos daquele que parece ser um dos maiores feitos do porto-alegrense, o curta ''Ilha das Flores'', lançado em 1989 e até hoje considerado um marco em sua carreira.  Arrisco dizer que não haja ninguém que não tenha assistido a tal documentário, especialmente nos anos de ensino médio, mas, vá lá, quem sabe nem todos conheçam. Desde que o vi, fiquei encantada. Encantada, mas não num sentido ''jogo no time do Jorge Furtado Futebol Clube'', e, sim, ''que baita jeito de contar uma história, com deboche e precisão''. Trata-se de um roteiro quase lúdico…

Su deboche es mi deboche

Terminei, há uns dias meses, o último livro da ótima Tati Bernardi, aquela moça que meio mundo ama incluir em suas selfies, muito embora a maioria daquelas frases toscas não sejam de autoria da roteirista - palavras da mesma. Pois Tati, que fez de seu transtorno psicológico matéria-prima para muitas de suas genialidades, me fez rir quase convulsionada com o hilariante - porém não menos denso - Depois a louca sou eu. Eu simplesmente cheguei ao cúmulo de parar a leitura e, entre risos histéricos, repetir para mim mesma:''ela não pode ter escrito issoooooooo''. Pois não é que escreveu? E escreveu muito bem (putaquepariu, um texto bem escrito é a minha Disney!!!). É um tom confessional delicioso e intimista, é quase como se eu quisesse abraçar Tatiane e dizer que também já estive ali - estaremos sempre algumas vezes na vida porque esses dilemas psicológicos são dificílimos de desgrudar. Talvez não desgrudem nunca.
Foi um deleite ver a escritora revelar seus piores dramas …