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Sobre "Pequena Miss Sunshine"

"Atordoada" não é uma palavra que caiba muito aqui, porém creio que ilustre bem o modo como me senti, hoje, após assistir “Pequena Miss Sunshine” – sim, o atraso é enorme e imperdoável. Referido filme está impregnado de humanidade e, embora carente de minha atenção por tanto tempo, demonstrou-me que segue incrivelmente fresco em seu propósito. Já vi bons filmes nessa vida, mas nunca me deparei com tanta verossimilhança em uma história tão improvável. Poderia ficar discorrendo sobre aspectos técnicos – dos quais, aliás, ainda sou mera aprendiz – e fazer uma legítima resenha, mas não é meu objetivo por ora. Vou é tentar abstrair o encanto que a saga de Olive e seus parentes rumo à Califórnia provocou na criatura agridoce que vos escreve. Mas farei isso sem as coerções exigidas pelas críticas cinematográficas, então, tentemos.
Dizer que o longa fala de um clã desestruturado que embarca em uma viagem que mudará para sempre o rumo de seus membros soa, no mínimo, simplista. Ainda que o grande objetivo seja o de levar a caçula a um concurso de beleza na velha Kombi amarela da família – símbolo máximo dos malucos adoráveis - o road-movie envolve em um fato além disso: em como o ser humano é frágil enredado em sua teia de "verdades", na busca por mostrar seu valor e suas concepções à sociedade. Para ratificar isso, somos brindados com atuações brilhantes e com personagens demasiado reais. São pessoas confusas, instigantes, excêntricas e, como não deixaria de ser, fascinantes.
A matriarca, sempre agregadora, tentando minimizar os vários conflitos que surgem no desenrolar da trama, ainda que se esvaia em questionamentos; O avô sarcástico e descrente, mas, mesmo assim, amoroso; A própria garotinha aspirante à miss, ingênua e esforçada, ainda que já carregue "sintomas" de uma criação pouco ortodoxa; O tio gay e suicida, cujos momentos reflexivos dão o tom dramático que é visto na história e de quem tirei as melhores lições; Entre outros personagens que carregam suas vidas nas costas - todos muito bêbados de existência e daquele humor que beira a bizarrice. No fundo, a sensação que se aninhou em mim é de que o absurdo comum a todos eles é totalmente compreensível, pois trata-se do mesmo que o meu.
Penso que seja impossível não se imaginar em, ao menos, um diálogo carregado de sutileza dentre os vários do filme. Em determinado conjunto de palavras e ações meticulosas lá está nossa vida ganhando replay, porém com novas cores e sentidos. Não soube explicar a gratuidade da simpatia com que fui arrebatada, após os créditos invadirem a tela da TV e a tal comédia metida a drama se despedir. Todavia, assenti com a cabeça ao lembrar daquele velho clichê que diz que ninguém é normal quando visto de perto.



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